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Depois de 142 anos desde o início da imigração italiana para o Sul do Brasil, o idioma desenvolvido por esses viajantes e seus descendentes, o talian, foi tema de um seminário no auditório do CTISM na quarta-feira (25). O Seminário Internacional Talian trouxe ao colégio o italiano Alessandro Mocellin, um dos maiores especialistas do mundo no idioma vêneto – falado na região italiana homônima –, e o gaúcho Darcy Loss Luzzatto, principal pesquisador da língua talian.

À esq., Alessandro Mocellin tem sua fala traduzida pelo professor Zancan. À dir., palestra do professor Darcy Loss Luzzatto sobre história do talian.

Dividido em dois momentos, o evento teve como público, na parte da tarde, autoridades públicas, diretores de escolas e líderes de associações culturais de Santa Maria e de municípios da Quarta Colônia. Entre as autoridades, estava o prefeito de Ivorá, Ademar Valentim Binotto

Estavam presentes ainda o coordenador e alunos do Istituto 8 Marzo, que oferece o equivalente ao ensino médio na cidade vêneta de Mirano, a cerca de 20 km de Veneza, e estudantes do campus de Jaguari do Instituto Federal Farroupilha, além de servidores do CTISM e de jornalistas.

Antes, pela manhã, o seminário foi realizado para turmas dos cursos técnicos integrados do CTISM.

Mocellin e Luzzatto exibem obras de sua própria autoria no auditório do CTISM, no encerramento do Seminário Internacional Talian, na quarta (25).

TALIAN

O evento deu início ao Projeto Talian, o novo projeto de extensão do CTISM, coordenado pelo professor Marcos Daniel Zancan, que visa valorizar e preservar a língua talian.

Ao longo de sua palestra no evento, Luzzatto, autor de um dicionário de talian e de livros e poemas no idioma, contou a história e curiosidades dos descendentes dos imigrantes do norte da Itália no Rio Grande do Sul. Luzzatto, ele próprio procedente de família do território que atualmente corresponde a Trentino-Alto Adige (na época controlado pelo Império Austro-Húngaro), fez um apelo para que a cultura e a língua dos imigrantes seja valorizada e mantida.

A chegada de imigrantes italianos ao Sul do Brasil começou em 1875. Eles ocuparam, inicialmente, terras doadas pelo governo do imperador Pedro II no nordeste do RS, na região dos Campos de Cima da Serra.

Ao longo dos anos seguintes, com a rápida chegada de milhares de imigrantes italianos, as colônias se estenderam para outras regiões gaúchas e para os estados de Santa Catarina e do Paraná.

Entre os idiomas falados pelos colonos, estavam vêneto, friulano, trentino e dialetos lombardos. Como os diferentes grupos ocuparam os mesmos espaços no Brasil, as linguagens se homogeneizaram com o passar dos anos, e sofreram a influência do português. O resultado foi a língua talian, na qual predomina o vêneto.

O talian foi praticamente a única língua falada nas colônias até ser proibido pelo regime do Estado Novo do presidente Getúlio Vargas, quando ele tomou o lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial e declarou guerra à Alemanha Nazista, à Itália Fascista e ao Império Japonês.

Durante o conflito, o talian foi reprimido pelo regime varguista e passou a ser considerado uma fala de pessoas incultas. Ao longo das décadas seguintes, surgiram movimentos em defesa da revalorização do idioma. Hoje, há rádios e livros em talian.

VENEZA

Em sua palestra no Seminário Internacional Talian, Alessandro Mocellin falou em vêneto. O idioma predomina no Vêneto – a região italiana que tem Veneza como capital. Mocellin, diretor da Academia da Língua Vêneta, discorreu sobre a história do local e sobre as características do idioma – e suas diferenças em relação ao italiano.

Vista do início do Canal Grande, via principal de Veneza, capital vêneta, com piazza San Marco, campanário da Basílica San Marco e Palácio dos Doges.

Além da língua e da cultura, o Vêneto possui sua história própria. A região corresponde à República de Veneza, país que existiu do final do século VII até 1797. Enquanto no restante da Europa vigoravam os regimes feudalistas, Veneza era praticamente o único ponto do continente em que havia intensas relações comerciais e diplomáticas com outros países. A cidade foi precursora do sistema capitalista e das navegações que seriam iniciadas no século XV.

Além disso, seu sistema político era próximo ao das atuais democracias ocidentais, se comparado aos demais países europeus da época. O chefe de estado de Veneza, o doge, tinha seus poderes limitados por um parlamento. A república consolidou-se como potência naval e conquistou territórios em lugares como os mares Egeu e Negro.

A cidade-estado entrou em decadência econômica e geopolítica com o fim do feudalismo, quando os reinos europeus eclipsaram o poder de Veneza. Em 1797, a república chegou ao fim, conquistada pelas tropas do líder francês Napoleão Bonaparte.

Após o Congresso de Viena, que redesenhou o mapa da Europa após a derrocada de Napoleão, foi criado o Reino Lombardo-Vêneto, que incluiu as regiões do norte da atual Itália da Lombardia, do Vêneto e do Friuli-Venezia Giulia. Embora fosse formalmente independente, o reino era subserviente aos Habsburgo, a família real austríaca. Em 1866, o território foi anexado ao recém-criado Reino da Itália.

O Reino da Itália era uma ampliação do Reino da Sardenha, que, em 1861, passou a controlar toda a península, com exceção dos arredores de Roma, que ainda pertenciam à Igreja Católica. A anexação ficou conhecida como unificação italiana. Os líderes da unificação resolveram adotar o idioma da Toscana como oficial do novo reino, e ele é conhecido hoje como a língua italiana. Os demais idiomas começaram a entrar em desuso.

No entanto, como apenas nove anos se passaram entre a integração do Vêneto à Itália e o início da emigração para o Brasil, os migrantes que desembarcaram no RS ainda preservavam seus próprios idiomas.

Hoje, o Vêneto é foco de movimentos que defendem a independência do norte da Itália. O presidente da região, Luca Zaia, pertence à Liga Norte, partido que defende a secessão.

 

 

MEMORIAL

No seminário do CTISM, foi apresentado também o Memorial Virtual de São João do Polêsine, que aborda a história e outros aspectos da cidade. O memorial foi desenvolvido pelo colégio em parceria com a prefeitura da cidade. A ferramenta foi exposta no evento pelos seus organizadores, a professora Roselene Moreira Gomes Pommer e Ricardo Kemmerich, formado em História pela UFSM.

Organizadores, palestrantes e público do Seminário Internacional Talian posam para foto oficial no fim do evento com a bandeira de Veneza.

 

por Rossano Villagrán Dias

fotos 1, 2, 3 e 5 Matheus Cargnin/Núcleo EaD

foto 4 Wikimedia Commons